Eleição americana: vitória democrata na Câmara aprofunda divisão política nos EUA

Por Por: Ge Souza, do Rio de Janeiro, RJ

 

No dia 6, os americanos foram às urnas para eleger 435 deputados (as), 35 senadores (as) e novos governadores (as) em 36 estados. Enquanto escrevíamos esta matéria, a apuração ainda estava em andamento, mas os principais resultados já estão consolidados: os democratas retomaram a maioria na Câmara, depois de oito anos como minoria, e os republicanos mantiveram a sua maioria no Senado.

O Partido Democrata garantiu até agora, 222 vagas na Câmara (aumentou 27 cadeiras), enquanto o Partido Republicano elegeu 196 deputados (as). Ainda há 17 cadeiras indefinidas, em estados onde a apuração não terminou. No Senado, os republicanos mantiveram 51 senadores (as), e os democratas 46. Três vagas ainda estão sendo apuradas. Para os governos estaduais, os republicanos terão 25 governadores e os democratas 23. Três estados ainda não divulgaram os resultados.

Logo após conhecer os resultados, Trump twitou: “Foi um tremendo sucesso esta noite. Obrigado a todos!

Mas qual foi o tamanho deste sucesso? Na verdade, tanto democratas como republicanos tiveram vitórias relativas nestas eleições. Os democratas, ao conseguirem maioria na Câmara, podem trazer grandes problemas ao governo Trump, como barrar a liberação de fundos para a construção do muro na fronteira com o México, rejeitar os cortes fiscais e impedir a aplicação de mudanças nas políticas comerciais, como desejava Trump. A maioria democrata pode investigar as declarações fiscais de Trump (que ele se recusa a apresentar), possíveis conflitos de interesse empresariais e alegações envolvendo a campanha do presidente em 2016 e a Rússia. Além disso, o Partido Democrata venceu em sete estados onde Trump ganhou em 2016, e que eram governados pelos republicanos: Novo México, Illinois, Kansas, Nevada, Maine, Michigan e Wisconsin. O Partido Republicano, por sua vez, não venceu em nenhum estado governado por um democrata.

O controle do Senado garante a Trump a possibilidade de continuar confirmando juízes e outros nomeados. O Senado pode garantir ao governo Trump, o bloqueio de qualquer lei que os democratas possam propor e aprovar na Câmara, e que não agrade a Presidência, evitando que Trump tenha que impor seu poder de veto. Mas, a principal vantagem da maioria dos republicanos no Senado é política. Em sua campanha pela reeleição em 2020, que certamente se dará e que já começou, Trump terá o trunfo político de culpar os democratas pelos problemas que venha a ter no governo, acusando-os de que não pode fazer mais por conta da maioria democrata na Câmara, que não lhe permitiu governar.

A “onda rosa” se confirmou: um voto contra a misoginia e o racismo de Trump

A mídia americana vem chamando o avanço da representação feminina nestas eleições de “onda rosa”. No entanto, este aumento da participação das mulheres vem crescendo há pelo menos seis anos. Em 2012, havia 298 mulheres candidatas a Câmara e ao Senado. Em 2016, foram 312 candidatas. Este ano, chegou ao recorde de 529 candidatas. Isto representa um aumento de 77% no número de candidatas em relação a 2012. Depois das primárias, as convenções partidárias que indicam os candidatos (as) de cada Partido, 271 mulheres se tornaram candidatas: 24 como senadoras e 247 como deputadas, segundo dados do Centro Americano para Mulheres e Política da Universidade Rutgers.

Além do Legislativo, 61 mulheres se candidataram nas primárias ao cargo de governador. Destas, 18 foram indicadas por seus partidos: 13 democratas e 5 republicanas.

A maior parte das mulheres que se candidatou é democrata: 210 daquelas que seguem na corrida para serem eleitas: 194 para a Câmara e 16 para o Senado. O Partido Republicano tem apenas 61 do total de 271 candidatas concorrendo: 53 para a Câmara e 8 para o Senado.

Para alguns analistas, o aumento da participação feminina nestas eleições está relacionada com uma reação ao presidente Donald Trump. Não esqueçamos que foram as mulheres que protagonizaram a primeira e a maior manifestação contra Trump, no dia seguinte a sua posse. Desde então a insatisfação das mulheres contra Trump só aumentou. No entanto, outros fatores também influenciaram o aumento das mulheres na política. O movimento #MeToo é um destes fatores, ao denunciar a violência sexual cotidiana que as mulheres americanas sofrem no trabalho, na escola ou em casa. Na verdade, as mulheres americanas, como em todo mundo, estão se organizando e lutando contra as condições de trabalho e salários inferiores aos dos homens, a violência e o assédio sexual, entre tantas outras formas de opressão que sofremos cotidianamente.

É provável que mais de 100 mulheres sejam eleitas. Elas irão representar a diversidade e a luta contra o racismo, o machismo e a lgbtfobia. Há 84 mulheres negras concorrendo ao Congresso este ano – um aumento de 42% em relação a dois anos atrás. Uma pesquisa do Times revelou que 58% dos candidatos ao Congresso eram homens brancos, a porcentagem mais baixa das últimas quatro eleições.

A maioria das eleitas pertence ao Partido Democrata. Em Massachusetts, Ayanna Pressley se tornou a primeira mulher negra eleita para o Congresso, de seu estado. Rashida Tlaib em Michigan e Ilhan Omar em Minnesota serão as primeiras mulheres muçulmanas no Congresso. Sharice Davids no Kansas e Deb Haaland no Novo México são as primeiras mulheres indígenas eleitas para o Congresso. No Tennessee, Marsha Blackburn, uma republicana, tornou-se a primeira mulher do estado eleita para o Senado. A democrata e socialista Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, se tornou a mulher mais jovem a ser eleita para a Câmara, aos 29 anos. Além das mulheres, Jared Polis, do Partido Democrata, se tornou o primeiro governador abertamente gay dos EUA a vencer a disputa no Colorado.

Mas, se houve avanços importantes nestas eleições, muito ainda precisa ser feito. Hoje, as mulheres representam 20% do Congresso: há 23 mulheres no Senado (23%) e 84 na Câmara (19,3%). De um total de 535 membros, apenas 107 são mulheres (78 democratas e 29 republicanas).

Segundo a UIP, a União Interparlamentar, os EUA, que se autoproclamam a maior democracia do mundo, estão em 102º lugar entre 193 países, no que diz respeito à representação das mulheres na política nacional. A sub-representação das mulheres não está só no Legislativo. Cinco dos 50 estados americanos não têm qualquer representante feminina em suas assembleias. Há ainda muito que fazer. Mas, cada avanço no terreno da luta contra as opressões é importante e tem que se garantido nas urnas e nas lutas para que não retrocedam.

O interesse pelo socialismo e o crescimento do DSA

Tratados como fenômeno político nos EUA, desde que Trump chegou ao governo, o Democrat Socialist of America – DSA – entre 2015 e 2018 passou de 5 mil membros para 52 mil! E isto foi conseguido se apresentando como socialistas, talvez a ideia mais temida pelo cidadão médio americano, depois do diabo.

O DSA foi criado na década de 1980 a partir da fusão de dois grupos de esquerda: o Comitê Organizador do Socialismo Democrático (que era o herdeiro do extinto Partido Socialista dos Estados Unidos) e o Novo Movimento Americano (uma aliança de intelectuais progressistas com ligações com os partidos de esquerda). Em seu interior convivem aqueles que defendem um estado liberal de bem estar social e os que querem grandes transformações na sociedade americana e o fim do capitalismo.

Mesmo se reivindicando como socialistas democráticos, a maioria do DSA não defende um Estado socialista ou o fim da propriedade privada. Eles representam a ala mais a esquerda do Partido Democrata e propõem medidas que regulem a economia americana de maneira democrática (um capitalismo com rosto humano), onde as grandes empresas deveriam defender os interesses da população. Lutam pelo aumento real do salário mínimo e pela melhoria da igualdade social, onde a saúde e a educação seriam públicas e gratuitas. Estas inclusive foram as principais bandeiras defendidas pelos candidatos (as) do DSA nas eleições americanas deste ano.

Nas eleições do dia 6, o DSA concorreu usando a legenda do Partido Democrata com 64 candidatos (as): 5 tentaram uma vaga no Congresso Nacional, 1 disputou uma vaga de governador e 25 concorreram a vagas nas assembleias estaduais. Ainda não temos um balanço dos números de votos conseguidos pelos candidatos do DSA ou quantos foram eleitos, mas Alexandria Ocasio-Cortez, foi eleita para a Câmara, por Nova York, depois de derrotar Joe Crowly, nas primárias democratas, que era parlamentar desde 1999. Alexandria não aceitou contribuições de empresas, e sua campanha foi feita a partir de sua militância social junto aos imigrantes.

O crescimento do DSA se explica pela mudança que vem ocorrendo na opinião pública americana a respeito do socialismo, e que teve como expressão máxima a candidatura de Bernie Sanders, que sempre se apresentou como um socialista democrático, nas primárias do Partido Democrata, concorrendo com Hilary Clinton à indicação dos democratas para a presidência. Aliás, Sanders se reelegeu para seu terceiro mandato como senador com folga.

Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup, 37% dos americanos têm uma imagem positiva do socialismo, enquanto 56% preferem o capitalismo. Quando se avalia a opinião sobre o socialismo e o capitalismo nas diversas faixas etárias, as opiniões mudam. 51% dos mais jovens tem uma visão favorável ao socialismo, enquanto entre os que têm mais de 65 anos, apenas 28% reivindicam o socialismo.

A pesquisa não qualifica o que os entrevistados entendem por socialismo, isto é, se fazem de fato uma distinção entre reforma e revolução. Mas, é muito progressivo que uma parcela da população americana, e particularmente sua juventude, veja no socialismo uma saída para a crise causada pelo capitalismo.

Imagem positiva das ideologias nos Estados Unidos (em porcentagem de acordo com grupos etários)
Visão positiva do capitalismo Visão positiva do socialismo
Dos 18 aos 29 anos 45% 51%
Dos 30 aos 49 anos 58% 41%
Dos 50 aos 64 anos 60% 30%
Mais de 65 anos 60% 28%
Dados de 2018 (Fonte: Gallup/BBC)

Em entrevista a BBC, Daniel Schlozman, professor de ciência política da Universidade John Hopkins, afirmou que: “Esta geração [os jovens] teve que passar por uma recessão muito severa causada por especulação, empréstimos bancários arriscados e falta de regulamentação, o que causou um enorme crescimento das dívidas com educação universitária; e que a fez ver que seu padrão de vida não será automaticamente melhor do que o de seus pais; Portanto, havia uma abertura para algo que não é o capitalismo, já que este, em muitos casos, não os ajudou.

Podemos dizer que há um desencanto com o capitalismo e tudo que “que está aí”, em grande parte da juventude americana. Este sentimento fez com que fenômenos como Sanders e o DSA capitalizassem esta insatisfação, levando mais jovens e mulheres a participarem da política e do processo eleitoral (houve um aumento de 36% no número de votantes nestas eleições).

O resultado eleitoral não chegou ser um “referendo” contra o governo Trump, como desejava a oposição democrata. Mas, a divisão do Congresso entre democratas e republicanos com certeza trará muito mais dificuldades para os projetos de Trump e sua jornada até as eleições presidenciais de 2020.