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CULTURA

Pussy Riot e a performance como ferramenta das lutas sociais

Por Por: Lara Lima, do Rio de Janeiro, RJ

Durante a partida final da Copa do Mundo no último domingo, quatro ativistas invadiram o campo do jogo Croácia X Rússia, vestidas com uniformes da polícia russa. Os telespectadores não puderam ver toda a performance, devido à regra da FIFA de interromper as transmissões em caso de invasão de campo, porém as imagens já entraram para a história do campeonato e chamam atenção para aspectos importantes da política do país.

As quatro ativistas que entraram em campo cumprimentaram os jogadores correndo cada uma em uma direção, interrompendo o andamento da partida. Imediatamente, policiais entraram no campo para retirada das manifestantes. O protesto foi reivindicado pelo grupo artístico e político feminista Pussy Riot em suas páginas nas redes sociais.

Leia a nota na íntegra:

“NOTÍCIAS FLASH! Há apenas alguns minutos, quatro integrantes do Pussy Riot se apresentaram na final da Copa do Mundo da FIFA com a performance – ”Policial entra no jogo”

Fazem 11 anos desde a morte do grande poeta russo, Dmitriy Prigov. Prigov criou na cultura russa uma imagem  de um policial, um portador da nacionalidade celestial.

O Policial Celeste, de acordo com Prigov, fala sobre os dois caminhos da vida com o próprio Deus. O Policial Terrestre se prepara para dispersar comícios. O Policial Celestial toca gentilmente uma flor em um campo e desfruta de vitórias de times de futebol russos, enquanto o Policial Terrestre se sente indiferente à greve de fome de Oleg Sentsov [1]. O Policial Celestial surge como um exemplo da nacionalidade, o Policial Terrestre fere a todos.

Enquanto o Policial Celeste protege o sono do bebê, o Policial Terrestre persegue presos políticos, aprisiona pessoas por suas “repostagens” e “curtidas” nas redes sociais.

O Policial Celeste é o organizador do belo carnaval da Copa do Mundo, o Policial Terrestre tem medo da comemoração. O Policial Celeste observa atentamente a obediência às regras do jogo, enquanto o Policial Terrestre entra no jogo sem se importar com as regras.

A Copa do Mundo da FIFA nos lembrou das possibilidades do Policial Celeste na grande Rússia do futuro, mas ao mesmo tempo o Policial Terrestre, jogando um jogo que não tem regras, divide nosso mundo.

Quando o Policial Terrestre entra no jogo, exigimos:

1.Liberdade para todos os presos políticos.
2. O fim do aprisionamento por “curtidas” nas redes sociais.
3. O fim das prisões ilegais em manifestações.
4. A permissão da competição política e justa no país.
5. O fim da fabricação de acusações criminais e do mantimento das pessoas presas sem que haja motivo.
6. A transformação do Policial Terrestre no Policial Celestial.”

Pussy Riot é um grupo artístico e político feminista russo conhecido mundialmente por suas performances contra o governo de Vladmir Putin. Criado em 2011, realizaram diversos flash mobs, ficando mais conhecidos pelo que aconteceu na catedral de Cristo Salvador em Moscou em 2012, quando realizaram a performance “Virgem Maria, expulsa o Putin”. As integrantes do grupo que participaram desta performance cumpriram 2 anos de prisão.

Após essa performance, o grupo continua suas atividades e no último mês lançaram um álbum com músicas que criticam as eleições que colocaram Putin no poder.

A relação do grupo com o presidente e as autoridades Russas são conflituosas desde seu surgimento. Em fevereiro deste ano, dois integrantes desapareceram na área da Criméia, segundo declarações do grupo eles haviam sido detidos pela polícia secreta Russa.

As ativistas que participaram da performance “O policial entra em campo” passaram a noite em uma delegacia de Moscou e foram ouvidas pelas autoridades no dia seguinte, sendo condenadas à prisão administrativa por 15 dias e banidas de assistir a eventos esportivos por 3 anos.

A Copa do Mundo colocou a Rússia sob os holofotes mundiais, tornando explícitas leis que ferem diretamente os direitos humanos de sua população. Desde a proibição de levantamento de bandeiras LGBTIs, até a prisão de pessoas por causa de suas interações nas redes sociais, ou mesmo sem que haja qualquer motivo.

A manifestação das russas são parte do ascenso da pauta feminista em todo o mundo e do destaque das mulheres na vanguarda dos movimentos de resistência. As mulheres mundialmente vêm demonstrando em suas lutas que são o que existe de mais dinâmico na luta de classes.

Dentro desta onda feminista, a preocupação pela estética da mensagem e o crescimento do uso da performance como veículo de transmissão das demandas dos movimentos demonstram, mais uma vez, como elas entenderam como funciona a dinâmica da repercussão de informação no mundo globalizado da internet.

Mesmo com a regra da FIFA de parar as transmissões em caso de qualquer interrupção do jogo, as imagens das ativistas em campo vestidas de policiais russos já entrou para a história, e está levantando o debate sobre os direitos humanos na Rússia na comunidade internacional.

Diversos protestos feministas nos últimos anos demonstram a preocupação com a forma estética e a maneira de viralizar suas pautas na internet. A Greve Internacional de Mulheres em 2017 foi um dos momentos onde o uso das redes foi crucial para a articulação internacional entre os movimentos feministas de mais de 62 países. Na Argentina, a luta que levou à vitória pela legalização do aborto no país adotou os lenços verdes como símbolo, transformando as ruas das principais cidades em um mar verde pela vida das mulheres, criando uma identidade de luta.

A Women’s March, protesto que aconteceu em diversos países no dia da posse do presidente Trump, utilizou chapéus rosa (pussyhats) como identidade, tomando as ruas com mais de 2,5 milhões de manifestantes em todo os EUA.

O uso da performance como ferramenta de luta não vem de hoje. Em 1969, John Lennon e Yoko Ono usaram o interesse da imprensa pelo casamento deles para realizar a performance “Bed-In for world peace”(Na cama pela paz mundial), onde ficaram sete dias na cama de um hotel onde recebiam jornalistas das 9 da manhã às 9 da noite, onde eles falavam sobre a Paz mundial. Eles realizaram essa performance em Amsterdã, na época de sua lua-de-mel, e novamente no Canadá, onde gravaram a música “Give peace a chance”, com a presença de outros diversos músicos.

Hoje a força desse protestos é potencializada com a viralização nas redes sociais, e o Pussy Riot, assim como os diversos coletivos feministas ao redor do mundo, demonstram entender bastante sobre a dinâmica nas redes. Ao invadir o campo de futebol durante a final da Copa do Mundo, elas levaram a mensagem de violação dos direitos humanos na Rússia para mais de 100 países ao redor do mundo, apenas contando os países que tinham acesso à transmissão por streaming das partidas.

Enquanto Trump e Putin se encontram para afinar suas políticas conservadoras, as mulheres dão a resposta em campo e nas ruas, nas artes e onde mais eles quiserem.

[1] Fazem referência ao cineasta ucraniano Oleg Sentsov. Durante a invasão da Criméia pela Rússia, ele  foi responsável por levar alimentos e mantimentos para os soldados ucranianos.

Sentsov foi condenado à 20 anos de prisão por organizar protestos contra a Rússia pela anexação da Criméia, e faz greve de fome há mais de um mês por sua liberdade.

*Lara Lima é artista e ativista