Skip to content
BRASIL

Cinco questões sobre as eleições presidenciais mais imprevisíveis das últimas décadas

Por Editorial de 07 de julho de 2018

Faltando apenas três meses para as eleições, o que impressiona é o grau de indefinição, especialmente para a Presidência da República. Muito se comparou a eleição deste ano com a de 1989, a primeira eleição presidencial depois do fim da ditadura, especial pelo grande número de postulantes ao Palácio do Planalto.

Entretanto, devido a este cenário totalmente em aberto, tão próximo do dia da votação, já nos autoriza dizer que esta é a eleição mais indefinida de nossa história recente. Alguns fatores, em especial, contribuem para esta situação:

1 – Impedimento absurdo de Lula
A condenação sem provas, prisão e impedimento da candidatura do ex-presidente Lula (PT) é o principal fator que explica o alto grau de indefinição política atual. Caso Lula concorresse, a grande disputa, provavelmente, seria sobre quem iria com ele ao segundo turno.

Mesmo preso há exatos três meses, Lula segue liderando todos os cenários em pesquisas de intenção de votos. O golpe parlamentar e a verdadeira desgraça que representa o governo ilegítimo de Temer para a maioria do povo, explicam, em última instância, a manutenção dos altos índices de intenções de voto em Lula, mantidas mesmo depois de toda campanha midiática contra ele e a sua prisão política.

Não se trata, em nenhum momento, de deixarmos de apontar os graves erros do projeto petista de poder, especialmente, sua aliança com partidos e políticos da chamada velha direita, muitos dos que apoiaram o golpe, e a aplicação de um programa rebaixado quando estiveram no governo, que em nada rompeu com os interesses das grandes empresas e bancos.

Entretanto, nossa justa crítica ao projeto de conciliação de classes da direção do PT não pode nos levar a deixar de identificar o caráter reacionário e seletivo da Operação Lava Jato e da prisão política do ex-presidente.

Lula segue preso e impedido de concorrer nas próximas eleições, enquanto Temer, Aécio, Alckmin e cia seguem livres e se preparando para mais uma vez tentar enganar a população com suas promessas mentirosas na campanha eleitoral.

As últimas manobras do ministro Fachin do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, para impedir o julgamento de um novo pedido de liberdade de Lula na Segunda Turma deste Tribunal vem apenas confirmar o objetivo político desta condenação, para tirar do povo o poder de decisão.

Todas as eleições sempre são fortemente marcadas pela influência antidemocrática do poder econômico e dos grandes meios de comunicação. Porém, nesta eleição, existe um problema ainda mais grave: o impedimento da candidatura de Lula, através de uma condenação sem provas, o primeiro lugar em todas as pesquisas, este de fato é um grave atentado contra as liberdades democráticas e representa a intensificação do golpe.

2 – Crise de representação da velha direita
Junto com o impedimento absurdo da candidatura de Lula, outro elemento que contribui muito para o quadro de grande indefinição, é a grave crise de representação das pré-candidaturas dos partidos da direita tradicional, especialmente PSDB, DEM e MDB. Nestas eleições, de fato, está ameaçada a polarização eleitoral entre PT X PSDB, que desde 1994 vem sendo a principal disputa nas eleições presidenciais.

O fracasso dessas pré-candidaturas nas pesquisas, como de Alckmin, Rodrigo Maia, Henrique Meirelles, entre outros, ameaça à presença deste campo burguês e conservador no segundo turno das eleições presidenciais.

O quadro vem gerando um desespero, especialmente entre os tucanos. O ex-presidente tucano, FHC, vem fazendo forte apelo pela unificação destes partidos, chamados de centro, nas próximas eleições, inclusive desde o primeiro turno, se for necessário.

Não se descarta também a aproximação do campo político que foi maioria durante os governos de FHC e que deu sustentação ao governo ilegítimo de Temer da pré-candidatura de Marina Silva (Rede).

3 – Fator Bolsonaro
A figura sinistra de Jair Bolsonaro (PSL-RJ), expoente atual da extrema direita no Brasil, é um dos fatores mais regressivos do quadro político brasileiro. Ele vem liderando as pesquisas de opinião, quando o nome de Lula não é incluído.

Seu perfil político atual é marcado pela combinação perversa de um discurso profundamente conservador – contra oprimidos, movimentos sociais e  direitos humanos – com um programa econômico radicalmente liberal, defendendo mais privatizações e a intensificação da abertura da economia brasileira para as grandes transnacionais.

Esse perfil que mistura o que tem de pior na política brasileira vem ganhando adeptos entre grandes empresários, em especial no setor do agronegócio, e agora busca se expandir para outros ramos da economia.

Alckmin se encontra fortemente ameaçado pelo fator Bolsonaro. A estagnação nas pesquisas das pré-candidaturas do PSDB / DEM / MDB muito se deve a que Bolsonaro vem ocupando este espaço político. O que fez a campanha tucana começar a publicar peças publicitárias contra o candidato da extrema direita.

4 – Evitar as falsas opções
O impedimento – cada vez mais evidente – de Lula e a manutenção de Bolsonaro na frente das pesquisas vem gerando uma forte pressão pelo chamado “voto útil”. Para que se escolha qualquer opção, para tentar tirar Bolsonaro do segundo turno ou derrotar o candidato da extrema direita, caso ele passe para a segunda volta das eleições. Temos que evitar tomar decisões apressadas, muitas vezes pressionadas por conjunturas eleitorais que podem ainda mudar significativamente.

A pré-candidatura de Ciro Gomes (PDT-CE) busca se afirmar no eleitorado de oposição e simpático a Lula, com um discurso muitas vezes com elementos de esquerda e nacionalista. Entretanto, seu histórico político ligado aos partidos da direita tradicional, seus governos e da sua família no Ceará e seu programa que de fato não rompe com os interesses do grande capital, demonstram que esta não é opção efetiva para os que querem derrotar o golpe e seu projeto conservador. Por exemplo, Ciro Gomes busca também se aproximar do mercado e já se comprometeu com uma nova reforma da Previdência, além de discutir a possibilidade de se aliar ao DEM.

Também é uma falsa opção para os que querem de fato enfrentar os golpistas a opção pela pré-candidatura de Marina Silva (Rede-AC). Ela vem buscando ocupar também um espaço de oposição, mas seu projeto político está longe de representar de fato uma nova alternativa política, defende um programa de continuidade da política econômica e das reformas – no máximo com pequenos atenuantes – e, por isso, não duvidou apoiar o tucano Aécio Neves no segundo turnos das eleições de 2014.

Infelizmente, o próprio PT vem dando várias demonstrações que nada aprendeu com os graves erros de seus governos e do golpe de 2016. Neste momento, a direção do PT está construindo a mesma política de aliança para as próximas eleições, fechando acordos em importantes estados (MG, BA, CE, AL, entre outros) com partidos e políticos da velha direita, inclusive com alguns que apoiaram o golpe.

Nas próximas semanas, com a proximidade do prazo para a realização das convenções partidárias, vamos ver a concretização das mesmas alianças espúrias de sempre, unindo partidos que se reivindicam de esquerda e dizem defender os interesses do povo trabalhador, com as “velhas raposas” da política brasileira, que buscam apenas a se perpetuar no poder.

5 – A tarefa urgente de fortalecer uma nova alternativa do povo trabalhador
A esquerda socialista brasileira não pode embarcar no discurso equivocado do “voto útil”, que só serve para facilitar novas decepções políticas para a classe trabalhadora, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos. Temos que combinar uma política firme de unidade de ação e de frente única para enfrentar o golpe e seus duros ataques às liberdades democráticas e aos direitos sociais, com a construção de uma nova alternativa política, realmente independente da velha direita e das grandes empresas.

Nossa tarefa começa por chamar as centrais sindicais, os movimentos sociais combativos, os partidos de esquerda e os setores democráticos para a construção imediata de uma jornada de mobilização nacional e unificada.

Uma boa oportunidade de lançarmos esse movimento nacional poderá ser o ato-show pela liberdade de Lula, organizado por importantes artistas brasileiros, no dia 28 de julho, no Rio de Janeiro. E, também, na preparação pela base das mobilizações do dia nacional de lutas e paralisações, convocado pelas centrais sindicais e frentes de luta para o dia 10 de agosto.

E, nas eleições, devemos intensificar a campanha de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara para a Presidência da República, lançadas por uma frente política e social inédita, unindo movimentos sociais e partidos de esquerda, formada principalmente pelo PSOL, PCB, MTST e APIB.

Vamos, sem medo de mudar o Brasil! Apresentando um programa que enfrente realmente os ricos e poderosos, sem nenhuma aliança com os golpistas e as grandes empresas e bancos.

Marcado como:
eleições 2018