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BRASIL

Mortes na Maré: Contra a fúria de tiros, é urgente a unidade e a resistência!

Por Por: Sonia Lúcio Rodrigues, do Rio de Janeiro/RJ

Enterro do jovem Marcos Vinicius. Foto Fernando Frazão/Agencia Brasil

A notícia de que o corpo do adolescente Marcos Vinicius da Silva, de 14 anos, que foi baleado durante uma operação policial na quarta-feira, 20, na comunidade da Maré, estava sendo velado na tarde da quinta-feira (21) no Palácio da Cidade, em Botafogo, nos levou a lembrar do grito de protesto: “Chega de hipocrisia, esse governo mata pobre todo dia”, ecoado por moradores da Maré, em atos contra chacinas realizadas em anos anteriores e nos atos contra a execução de Marielle Franco, cria da Maré.

A operação policial envolveu agentes das forças de intervenção militar do Rio de janeiro e policiais civis. Atingido nas costas, Marcos Vinicius ainda foi atendido na UPA e levado a um hospital, mas não resistiu. Moradores denunciam que a polícia impediu a entrada da ambulância que fora resgatá-lo.

Outras seis pessoas foram assassinadas nesta operação, conforme divulgado pela Redes da Maré – Somos Todos Maré: outro adolescente, Levi, de 18 anos, e cinco jovens, que teriam sido simplesmente executados em uma casa na Vila dos Pinheiros por agentes do Estado, que utilizaram luvas e desfeito a cena do crime. Os corpos teriam sido jogados do segundo andar da casa onde ocorreu o crime, impedindo a garantia de investigação e perícia. A operação foi vista como uma “vingança” depois da morte de um policial, no dia 12 de junho.

“Caveirão voador”
Moradores registraram em vídeos o helicóptero da Polícia Civil, atirando para baixo indiscriminadamente. Segundo a Redes da Maré, essa é uma prática ilegal, que tem sido usada nas últimas operações policiais no complexo de favelas.

Ainda de acordo com o relatório da Rede, logo após a operação o chão da favela estava com muitas marcas de tiro e com restos de munição. “Nas ruas da Vila dos Pinheiros e na Praça do Salsa, o cenário é aterrorizante: na B1, em um perímetro de 280 metros a equipe da Redes da Maré contabilizou 59 marcas de tiro no chão. Ainda nessa região, muito próxima as escolas do Campus Maré II e Creche da Vila dos Pinheiros, registramos mais de 100 marcas de tiro do chão.” 

Segundo depoimento de uma professora ao jornal O Globo, foram cinco ou seis rasantes perto da escola, com tiros sendo disparados do helicóptero. Durante todo esse tempo, os alunos permaneceram abraçados e chorando. A Redes da Maré divulgou esta nota. A Defensoria Pública do Rio de Janeiro se manifestou e pediu a suspensão do uso de helicópteros em voos rasantes e para disparos em operações policiais em comunidades e locais densamente povoados. No dia 21, a Justiça do Rio de Janeiro negou o pedido, autorizando o uso do “caveirão alado”.

Tempo do Medo x Tempo de resistir
Os moradores da Maré, das favelas e periferias urbanas do Brasil conhecem, profundamente, o rol de violências, usurpações e violações executado com a atuação direta ou indireta do Estado brasileiro. O Estado que, historicamente, mata pobres e negros nas favelas o faz para promover uma “limpeza étnica e social” a serviço de um projeto empresarial de cidade, o qual, nos termos de Henri Lefebvre, quanto mais concentra os meios de vida, mais torna-se insuportável nela viver. O recado da burguesia é, terrivelmente, claro: na cidade dos negócios não há lugar para os pobres!

Não por acaso, conforme descrito por Helena Araújo em “Museu da Maré: entre educação, memórias e identidades”, há no Museu da comunidade um espaço alusivo ao Tempo do Medo, “onde as paredes são escuras, o ambiente é mais fechado, sem colorido, apenas muitas e muitas cápsulas de tiros, fotos com paredes perfuradas por tiros… é a violências de várias favelas, do Rio de Janeiro, das grandes cidades, do mundo. Se antes a luta dos moradores da favela da Maré era acabar com os alagados, ter casas de alvenaria e saneamento básico, atualmente é acabar e combater a violência no local. ” 

Em contraposição ao Tempo do Medo, a autora ressalta que há um espaço dedicado ao Tempo da resistência, pois na Maré foi (e é) necessário fincar trincheiras solidárias: “à maré, à polícia, à remoção. Neste espaço é mostrado a resistência através de jornais das associações de moradores se mobilizando nas lutas por melhoria das condições de vida, documentos de posse de casas, etc.” 

Chega de genocídio do povo negro
A execução de jovens nesta semana da Maré engrossa a lista de assassinatos divulgada no Atlas da Violência 2017. Segundo os dados, em 2015 aconteceram 59.080 homicídios no país. Quase uma década atrás, em 2007, a taxa foi cerca de 48 mil. Ainda segundo o estudo, homens jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas. A população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de crimes.

O fenômeno da violência letal contra crianças e adolescentes, no Brasil, não é, infelizmente, algo novo. Sua constatação, em termos científicos,  iniciou-se a partir das décadas de 1980 e 1990, com a elaboração de estudos como: o Dossiê do Menor, realizado pelo Defense for Children International (ONU, 1987) ou nos primeiros Mapas da Violência divulgados pela UNESCO (WAISELFIZ, 1998). Nesses documentos, os números expressavam altos índices de homicídios de crianças e adolescentes, obtidos através de dados do Ministério da Saúde, dos Institutos Médico-Legais e da imprensa em geral. Nestes, os dados  também demonstram a probabilidade quase três vezes maior de negros serem vítimas de homicídios, quando comparado aos assassinatos de  brancos.

Esses estudos já revelavam, com toda a nitidez, as marcas históricas de uma sociedade cujo poder dominante determina ou aceita perder toda uma faixa de idade de jovens – mortos, encarcerados ou simplesmente apartados do direito à  educação pública e ao emprego– em nome da reprodução e da manutenção de uma estrutura social fundada sobre o racismo e o ódio de classe!

Os dados do Observatório da Intervenção, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC/Ucam), não deixam dúvida de que a intervenção militar no Rio de Janeiro promovida por Temer e Pezão há quatro meses visa o aprofundamento da face penal, violadora e militarizada da  política de segurança pública do estado para intensificar a submissão de territórios e vidas dos segmentos pauperizados da classe trabalhadora à ponta do fuzil.

De acordo com o relatório do Observatório, nos primeiros dois meses  da  intervenção o número de chacinas dobrou, passando de seis para 12 casos entre 06 de fevereiro a 16 de abril deste ano em comparação com o ano passado e elevou o número de vítimas de 27 para 52 pessoas. O relatório registra ainda que, de 16 de fevereiro a 16 de abril, houve 1.502 tiroteios, que resultaram em 294 mortes e 193 feridos.

Passados 120 dias da intervenção federal na segurança do Rio de  Janeiro, houve uma aumento expressivo do número de tiroteios passando de 2.355 nos quatro meses pré-intervenção para 3.210 nos últimos quatro meses, conforme demonstra o infográfico a seguir:

Expressando seu absoluto compromisso em levar adiante o genocídio que vem sendo praticado pelo estado brasileiro, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, sugeriu que a intervenção seja prorrogada por mais um ano, até o fim de 2019.

Não foi “mais do mesmo”
Os acontecimentos desta última quarta-feira (20) na favela da Maré devem provocar um forte questionamento à  ideia  de que a intervenção militar do Rio de Janeiro significa “mais do mesmo”. Se é fato que a  violência e a opressão de forças policiais sempre foram uma realidade nas favelas e áreas periféricas do Rio de Janeiro, habitadas por uma ampla maioria de negras e negros, a  intervenção federal militar no Rio de Janeiro é uma prova cabal de que o genocídio de jovens negros moradores de favelas e periferias está se constituindo como  um dos instrumentos prioritários da ofensiva burguesa para enfrentar a crise do capital, sobretudo, após a ascensão, via golpe, de Michel Temer à Presidência da República, num contexto de crise do capital. Neste contexto de forte instabilidade política e econômica, a burguesia e seus governos buscam produzir coesão para enfrentar a sua impopularidade e  ilegitimidade por meio da utilização de mais e maior coercitividade.

Lamentavelmente, acontecimentos como o ocorrido na Maré nesta semana não têm provocado a mobilização de atos de solidariedade às famílias enlutadas e de protesto organizados por movimentos populares, estudantis e entidades sindicais contra Temer e Pezão – os grandes responsáveis pela chacina. A fragmentação entre os movimentos sociais de esquerda e a naturalização e banalização da violência do estado contra a juventude negra e pobre também atingem-nos brutalmente!

Tornar- se cada vez mais urgente e necessário unir esforços para vencer a fragmentação da esquerda e a banalização da violência promovida pelo estado para que os jovens pobres e negros possam desfrutar de sua juventude sem a constante e permanente  ameaça à sobrevivência e à morte iminente!

  • Contra a intervenção militar no RJ!
  • Toda a solidariedade à família de Marcos Vinicius e às dos demais adolescentes assassinados na chacina da favela da Maré!
  • Por Marielle e por mais unidade e solidariedade entre nós para resistir e lutar contra a barbárie capitalista e o genocídio do povo negro!   

FOTO: Enterro do jovem Marco Vinicius. Marcelo Frazão/Agência Brasil

 

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