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EDITORIAL

“Nós rejeitamos o presidente eleito”! Primeiras manifestações contra Trump nos EUA

Por quase uma semana, o principal assunto político mundial tem sido a eleição de Trump à presidência americana. Muito foi dito, mais ainda será analisado e isso é fundamental. Quem não entende o que está acontecendo não pode lutar contra os males que o afligem.

O Esquerda Online tem se dedicado a produzir elementos para essa compreensão. Com cautela, pois muitos aspectos ainda não estão claros, pelo pouco tempo transcorrido ou pela imprecisão das propostas.

Algumas das prioridades do governo começaram a ficar claras ontem, quando Trump concedeu uma longa entrevista no programa “60 Minutos” da rede de TV CBS e declarou que irá construir um muro (com partes sendo uma cerca) na fronteira com o México e que irá deportar milhões de imigrantes, “talvez 2 ou 3 milhões”, dizendo que se trata de traficantes ou criminosos, num novo e ainda mais grave ataque xenófobo.

Como se fosse pouco, isso se somou à nomeação de dois altos assessores de governo, um deles, Steve Bannon, ligado à ala mais racista e antissemita da extrema-direita que o apoiou. Mas também depositamos nossa esperança na reação que certamente virá porque o novo governo não proporcionará uma vida melhor para a maioria do povo americano. Os milhões que vivem dos trabalhos precários, que não conseguem pagar a conta dos caríssimos planos de saúde, que vivem em desemprego crônico, a população negra que sofre desproporcionalmente a violência policial e a política de encarceramento massivo.

De forma até certo ponto surpreendente para quem não vive nos EUA, a reação de consternação e tristeza se transformou em manifestações de milhares de pessoas em dezenas de grandes cidades americanas. Já são cinco dias consecutivos em que as manifestações não cessam. Em Los Angeles, 8 mil pessoas se manifestaram no sábado, em Oakland, 7 mil, enquanto em Nova York, mais de 10 mil pessoas marcharam pelas ruas centrais de Manhatan. Uma manifestante em Nova York resumiu o sentido da marcha: “ Estamos aqui para enviar uma mensagem para o país e para o mundo que os americanos não apoiam o presidente eleito”. A jornalista do site de notícias Democracy Now , Amy Goodman, informou diretamente do protesto em Nova York que em dezenas de cidades estão sendo organizadas redes de autodefesa contra a deportação, em previsão às lutas que estão por vir. Nesta segunda-feira, os prefeitos de Nova York e Seattle declararam que não irão colaborar com o projeto de deportação em massa de Trump.

Em várias escolas, houve paralisação de aulas e os estudantes de nível médio foram às manifestações. Em Los Angeles, hoje, segunda-feira, mais manifestações de estudantes em que se escutava o canto, ‘Say it loud, say it clear, immigrants are welcome here’ (Falem alto, falem claro, os imigrantes são benvindos aqui”, em tradução livre.

Essas manifestações unem os vários sentimentos: o antirracismo, a defesa dos direitos dos imigrantes – em particular contra a deportação-, a defesa dos direitos das mulheres, dos LGBTs, a defesa da luta ambientalista – exemplificada neste momento pelos índios Sioux em Dakota contra a construção de um oleoduto.

É comum nesta última semana ouvir os comentários espantados sobre como um racista, misógino e semi-fascista pode ser eleito nos EUA. Alguns se mostram desesperançados que tal votação tenha sido alcançada por Trump, ao mesmo tempo que sua opositora era uma representante do grande capital, de Wall Street e prometia uma política ainda mais agressiva no mundo. Mais ainda quando Bernie Sanders, que disputou a vaga para candidato pelo partido Democrata com um programa que recolhia algumas das reivindicações populares atuais, declarou-se disposto a trabalhar com Trump se for sério em melhorar a vida dos trabalhadores do país e outros avanços”, cuja probabilidade era menor do que zero…

As manifestações que observamos nesses dias recordam uma antiga lição: há uma outra tradição americana, pouco recordada, pouco mencionada: a tradição das lutas sociais, a tradição socialista do começo do século XX, a tradição de combatividade de seu movimento sindical nos anos 1930, a luta pelos direitos civis que incendiou quase que literalmente o país nos anos 60 e que conquistou direitos muito importantes para os negros, o direito de aborto para as mulheres. Há a tradição de oposição à guerra genocida no Vietnã que acabou auxiliando de forma decisiva à vitória dos vietnamitas e a unificação daquele sofrido país do Extremo Oriente.

Em entrevista à rede de Tv Al-Jazeera, uma ativista do Black Lives Matter, declarou: “´É um choque que um racista, xenófobo e machista tenha sido eleito para o posto mais importante nos EUA”…”Tenho medo pelo meu futuro. Ser negro agora nos EUA é perigoso”…”Durante o atual governo fui perseguida e intimida judicialmente e posso ir para a prisão. Pode ficar ainda pior”…”Aqui no Alabama, os supremacistas brancos e os racistas se sentiram fortalecidos”…”Mas nós não somos como nossos avós”…” Vamos reagir! Da forma que for preciso”.

É esta tradição, que tem seus precedentes recentes no Occupy Wall Street, no Back Lives Matter, que nos recordam essas primeiras andorinhas que saem às ruas antes mesmo da posse do presidente eleito e que sinalizam que poderá vir uma grande primavera de resistência!